Ex-eleitores do PT em Itaquaquecetuba explicam voto em Bolsonaro

Lucas Landin

Itaquaquecetuba está a apenas 39 km da capital paulista, mas tem pouco a ver com a imagem típica de São Paulo. Não se vê altos edifícios. Apenas casas grandes e pequenos prédios.

Ruínas de fábricas falidas na crise dos anos 1990 dividem lugar com pequenos comércios locais e loteamentos irregulares. Nesse cenário, o capitão da reserva Jair Bolsonaro (PSL) obteve 90.182 votos (58,40% do total), contra 41,6% do petista Fernando Haddad, no segundo turno da eleição presidencial em 28 de outubro.

“Votei no Bolsonaro sim, estava na hora de mudar”, diz Jorge Matias da Silva, 59, dono de um boteco na periferia da cidade. Jorge é um dos 39% dos moradores de Itaquaquecetuba que possuem renda mensal per capita de até meio salário mínimo.

Vive com o que ganha em seu pequeno negócio e tem a renda complementada pelos R$ 180 mensais que a esposa, Mazé, 54, recebe do Bolsa-Família. Na cidade de 369 mil moradores, há 42 mil famílias cadastradas no programa que é uma das bandeiras do PT.

Eleitores como Jorge e sua família representam o duro golpe que o petismo sofreu nas periferias. Em Itaquá, a expressiva votação de Bolsonaro representou uma guinada histórica à direita, após sucessivas vitórias ao Partido dos Trabalhadores desde 2002.

Em 2014, o município foi um dos seis onde o PT venceu o segundo turno na Grande São Paulo. Dilma Rousseff obteve ali 83.651 votos (52,81%) contra 74.759  (47,19%) do tucano Aécio Neves.

Durante os governos petistas, a cidade obteve importantes avanços na área social, mas a insatisfação popular cresceu desde o início da crise econômica.

“Tá tudo ruim, você sai de casa e não sabe se volta. No posto de saúde não tem médico, não tem remédio. A moçada não tem emprego, fica por aí fazendo o que não deve. Na última [eleição] eu fui de Dilma. Mas hoje, não dá mais para votar no PT”, desabafa.

Apesar de nunca ter sido governada diretamente pelo PT a nível municipal, o partido esteve presente na vida política da cidade no último período: foi base do prefeito Armando da Farmácia (2005-2012) do PR, e ocupou pastas na primeira gestão do governo Mamoru Nakashima (2013-2016), na época do PTN.

Em 2016, Mamoru se filiou ao PSDB para tentar a reeleição, e se distanciou dos petistas. Nesta eleição, o prefeito se manteve neutro, mas os vereadores tucanos declararam apoio a Bolsonaro e ao governador eleito João Doria (PSDB).

EMPREGO E CORRUPÇÃO

Outro novo eleitor da extrema-direita é o servente de pedreiro Ademilton Silva, 37, que deu o primeiro voto para presidente em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda em 1998. “Sempre votei no PT, mas dessa vez eles não tiveram meu voto”.

Desempregado há dois anos, Ademilton espera que o presidente eleito promova mudanças na economia e seja mais rigoroso no combate à corrupção. “Hoje em dia o povo não aguenta mais corrupção, ladroagem desses caras”, desabafa.

Sobre as polêmicas envolvendo o próximo presidente da República, como falas machistas, racistas e homofóbicas, Ademilton desconversa. “Os gays também devem estar precisando de emprego”.

Além de Bolsonaro, seus apoiadores também se saíram vitoriosos na cidade. O filho, Eduardo Bolsonaro (PSL), foi o segundo deputado federal mais votado ali (com 9.650 votos), enquanto Major Olímpio (PSL) foi o senador mais bem votado, com 47.460 votos.

Lucas Landin é correspondente de Itaquaquecetuba
lucaslandin@agenciamural.org.br

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