Professores falam da atuação em São Paulo e do Escola sem Partido

Ronaldo Lages

O professor de geografia Felipe Gomes Nascimento, 24, trabalha no Jardim Rodolfo Pirani, distrito de São Rafael, na zona leste da capital, na mesma escola onde estudou. Para melhorar o resultado dos estudantes em sala, ele ajudou a reorganizar um jornal estudantil, produzido pelos próprios alunos.

“O jornal começou este ano, eles diziam que sentiam falta de serem ouvidos, de poder ter um canal de comunicação de alunos para alunos, uma vez que não temos grêmio estudantil”, explica.

Projetos de educadores em prol de melhorias do ensino não são poucos espalhados pelas periferias da capital. Do estímulo a fazer mapas sobre a própria região a tratar da história do bairro, docentes têm atuado para trabalhar a educação de forma mais interativa.

“O que mais envolve os alunos são aquelas práticas que unem diversas disciplinas”, diz o historiador Eduardo do Espírito Santo Prado, 45, há 12 anos no ensino público. “Trabalhamos as aulas de química na cozinha, eles cozinhavam e ao mesmo tempo aprendiam sobre as reações das substâncias”, comenta Prado.

“Falamos sobre o uso de drogas lícitas e ilícitas com o apoio dos conhecimentos da história, química e sociologia”, exemplifica.

A professora Aline Martins, 31, leciona há seis anos ciências na escola Professor Jair de Toledo Xavier, na zona norte da capital, e também diz acreditar na eficiência de projetos interdisciplinares, além dos meios eletrônicos.

Aline Martins, professora há 6 anos, recorre à tecnologia dos aplicativos para o aprendizado de alunos (Ronaldo Lages/Agência Mural/Folhapress)

“A utilização de aplicativos de jogos baixados nos próprios celulares dos alunos para as aulas de inglês, química e matemática facilitaram o aprendizado”, conta a professora da Brasilândia.

Contudo, aponta que, por vezes, é preciso mediar conflitos. Aline conta que no começo da carreira, uma aluna que sofria bullying em sala de aula levou uma faca para a escola e chegou a atingir um aluno que a provocava.

“Os ferimentos foram leves nas mãos e nos braços, pois ele se defendeu. Isso foi um episódio muito violento que me impactou bastante”, relata Aline.

Por outro lado, Natália Carreira, 31, conta ter dificuldades para fazer atividades fora de sala de aula com os estudantes no Jardim Recanto Verde, extremo da zona norte da capital.

“Todos os projetos que tentei implementar fora de sala de aula sempre sofrem algum tipo de ressalva, mas acabo comprando a briga”, afirma Natália. “Sei que essas pessoas não fazem isso para atrapalhar minha aula, pois pensam apenas no lado mais prático e cômodo das coisas. Mas eu amo ser professora, trabalho porque gosto”, descreve Natália.

DIFICULDADES SEM PARTIDO

Segundo informações do governo do estado de São Paulo, a rede pública de ensino abriga 3,7 milhões de alunos em 5,4 mil escolas estaduais, número representativo dos desafios para professores.

Em recente pesquisa do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), o Brasil caiu mais uma posição entre 35 países avaliados no quesito “prestígio ao professor”. Anteriormente em penúltima posição, agora chegou ao último lugar.

Em meio a esse desprestígio, tem ocorrido a discussão sobre o projeto Escola Sem Partido. Nesta terça-feira (11), a proposta foi arquivada na Câmara dos Deputados, mas pode voltar a discussão em 2019Os defensores da proposta dizem que há doutrinação nos colégios do país e não deve haver discussão sobre política ou sobre gênero na classe.

A professora de história Patrícia Angélica de Oliveira, 40, tem notado o avanço da perseguição no ambiente de trabalho depois de 20 anos de experiência.  “Já fui ameaçada duas vezes por alunos”.

A primeira foi há dois anos. “Estava falando sobre a Revolução Russa, que é um conteúdo obrigatório da grade no 3º ano do ensino médio de história, quando um aluno me disse que aquilo era ‘doutrinação ideológica’ e eu não tinha o direito de falar sobre aquilo”.

“Respondi que cumpria minha obrigação como professora”. Ela diz que o aluno pediu transferência de horário. “Fiquei sabendo que lá ele me difamava para colegas e professores me chamando de ‘petralha’ e ‘doutrinadora’”, conta.

“Ano passado, havia um grupo de alunos ligados a uma corrente evangélica que tinham um certo estranhamento em relação a minha aula por ser militante do sindicato dos professores”, diz o professor de sociologia Kassiano César Souza, 37.

“Isso é pior no 3º ano porque o currículo do ensino médio contempla política e, no ano do impeachment da presidente Dilma, muitos me hostilizavam gritando em meio a aula: ‘Bolsonaro 2018’. Outros gravavam a aula e faziam perguntas provocativas fora de contexto”, desabafa.

Ronaldo Lages é correspondente da Brasilândia
ronaldolages@agenciamural.org.br

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