Funcionários da Ford em São Bernardo vivem incertezas sobre o futuro

Kátia Flora

Durante 42 dias entre março e abril, funcionários da Ford suspenderam as atividades, em protesto contra a decisão da empresa de deixar a cidade de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.

No período, o operador de produção Jean Luiz da Silva, 39, utilizou o tempo para conhecer um novo ramo: ao lado da esposa, aprendeu a fazer brindes personalizados para festas.

Morador do Jardim Santa Adélia, em São Mateus, na zona leste de São Paulo, ele vê o trabalho como uma opção caso seja demitido. “Pode ser uma fonte de renda, mas não se compara ao salário que ganho hoje”, afirma.

A situação de Silva é semelhante a de outros funcionários da fábrica, que vivem um período de incerteza por conta do anúncio de que a unidade será fechada. Preocupados com os rumos da montadora, os operários começaram a pensar em alternativas, mas ainda têm expectativa de que a empresa seja vendida para outra empresa do ramo e os empregos mantidos.

A fábrica, que produz caminhões Cargo, F-4000 e F350, e o carro Fiesta, informou em 19 de fevereiro que encerrará as atividades no final do ano. Ao todo, cerca de 3 mil operários e mais de 20 mil trabalhadores de empresas terceirizadas serão afetados com a saída.

Ford anunciou no começo do ano que fechará unidade em São Bernardo do Campo (Kátia Flora/Agência Mural/Folhapress)

O montador Denis Monteiro, 31, trabalha na linha de caminhões e carros há nove anos. Casado, ele é morador do bairro Rudge Ramos, em São Bernardo, paga o financiamento de um apartamento e, há dois meses, teve o primeiro filho. A esposa é técnica de enfermagem e está de licença maternidade.

Com o comunicado do fechamento, Monteiro ficou sem reação e preocupado diante da crise econômica no país e sobre o que acontecerá com a unidade.

Ele já tem preparado currículos para se precaver e não ficar fora do mercado. “Tenho que seguir a vida, pensava em me aposentar na Ford, mas não será possível. Minha expectativa é de que entre uma nova empresa e eu fique empregado”, diz.

A expectativa de aposentar na companhia foi apontada por vários trabalhadores.

Silva recorda que quando entrou na empresa, em janeiro de 2014, começou na linha dos caminhões Ford. Naquela época, afirma que houve redução no número de funcionários e cortes de benefícios para os que permaneceram na indústria.

“Fizemos sacrifícios aceitando a diminuição de direitos para manter o emprego e a montadora fez readequação dos operários para outros setores”, diz.

A montadora Ford na Avenida Taboão em São Bernardo (Kátia Flora/Agência Mural/Folhapress)

Os metalúrgicos estão trabalhando duas vezes por semana, nas terças e quartas, das 6h às 16h30. Nos outros três dias ficam de folga, até terminar a produção dos carros. Todos fazem um único período de atividades dentro da fábrica.

A planta da Ford foi instalada em São Bernardo há 52 anos, desde que a empresa adquiriu a Wyllis Overland do Brasil em 1967. A fábrica manterá as unidades de Taubaté, no interior de São Paulo, e Camaçari (BA).

O auxiliar de produção Lucas Sanches Padilha, 25, mora na Vila São Pedro, em São Bernardo. Ele trabalha desde o fim de 2013 e começou na produção do Fiesta, na época em que a montadora não estava em crise e o salário ajudou a pagar o aluguel.

Atualmente, faz a montagem de carros e caminhões, por causa do número reduzido de operários.

“A notícia foi um choque, não tem clima de trabalho e aflige nosso emocional e dos familiares também”, comenta. Padilha é técnico de mecatrônica e planeja voltar a estudar. Se não permanecer na empresa, pretende trabalhar por conta própria.

COMERCIANTES

A repercussão da decisão da Ford também afetou os comerciantes da região que sentem a redução de consumo nos estabelecimentos. É o caso do dono da Padaria Paris na rua da empresa, Sandro Luiz dos Santos, 44.

Santos era gerente nacional da indústria farmacêutica e exerceu a função por 20 anos. Em junho do ano passado foi demitido e resolveu empreender. Comprou a padaria no mês de setembro. Investiu cerca de R$ 350 mil, com estoque de produtos, reforma da fachada, maquinário e a contratação de dois funcionários.

Ele ouvia falar que a empresa fecharia, mas não imaginava que fosse rápido. “Estou preocupado porque coloquei toda minha rescisão aqui, e a Ford representa 35% do faturamento. Se não tiver um comprador, o impacto será grande, muitos estabelecimentos não vão conseguir se manter”, comenta.

Segundo o empresário, muitos comércios têm convênios com a montadora, como farmácia, posto de gasolina e hospitais, o que causaria uma redução drástica na economia local, caso se confirme a saída.

Em nota, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC informou que foi aprovado por unanimidade o pacote de indenização dos trabalhadores em assembleia realizada no fim do mês de abril.

A negociação inclui o pagamento da PLR (Participação nos Lucros e Resultados), PDI (Plano de Demissão Incentivada), amparo psicológico, curso de requalificação profissional, ajustes no plano médico, cláusula de quitação dos contratos de trabalho, entre outros.

Foi garantida também a permanência até 30 de março de 2020 dos trabalhadores que atuam nas áreas administrativas da Ford. As negociações com empresas interessadas na planta da Ford de São Bernardo do Campo seguem em andamento.

Kátia Flora é correspondente de São Bernardo Campo
katiaflora@agenciamural.org.br

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